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1 de outubro de 2011

O Banho do Vinte Nove 2011

Banho do Vinte Nove - 2011
Chigaram lá umas moças todas trajadas e com o farnel bem arrenjado...


Em dia de S. M'guel, vai-se ô Algarve e molha-se os caguêtes. P'r menes, era assim qu' os nossos avozes usavam a fazer. Já tinham o almêxar de milho na êra a secar, as alcagoitas pinduradas no sobrado p'a nã abolecerem, fruta, pôca p'r panhar a nã ser alguns margotons mái sarôidos ó peros que venham no tarde... Toca a ir p'ô coçáiro...

Foi o que se deu ontordia, melhor d'zendo, já esta semana. P'a todos os que se oposeram a dar o nome, a Junta arrenjô via - as caminetas da Cambra, 'tá bom de ver - e lá abalô tudo caminho da Praia do Vau. Isto im béspra do S. M'guel à nôte, qu' a gente faz a função à hora da cêa e amargulhamos no mar logo à mêa-nôte.

E isto premode quem? Premode os algarvios, nôtres tempes, terem a mania de fazer cachamorra da famila cá de cima. Chemavam serrenhos à gente, parentes e ôtras coisas inda mái ruins e riam-se duma pessoa ir lá, nã ter rôpa c'mo eles tinham p'a antrar na água e tomar banho im ciroilas, os homens, e as m'lheres im combinação. Nã bastando isso, era-se munto brancáizos e, a maior parte, ficava-se todos insiados tã penas vinha uma onda e molhava os dedos dos pés à gente.

 Banho do Vinte Nove - 2011
Estes dôs tamém qu'seram f'car no retrato...


Este ano, pertí com a minha Maria p'a se ir trajados à moda dos nossos avozes, mái nã dí fêto nada dela qu' a marafada, nem p'r um raça, quis tal coisa e, atão, foi a minha c'mad' C'stóida que se descoseu a vestir a farpela dela. Qu' o mê compad' Jôquim do Barranco, esse, tamém ninguém o fez infarpelar-se com os trajes do antigamente. Quái à hora da abalada, inda me virí p' à minha Maria:

- Ó m'lher, atã que jêto nã te trajares? A c'mad' C'stóida vai...

- Olha, nã m' atentes mái com isso!... Já disse que não, é que não!... Munta sorte já tu t'veste d' ê cá t' arrenjar ali o farnel que me dé um encómado que só visto. F'lhozes de milho, pexinhos da horta, piques de fresneco e aquele grandessíssem'ô tacho de papas qu' inda ali tenho ô fogo a ver se cria umas belas arraspas, qu' é c'm' ê gosto delas... Inda achas pôco?!...

- 'Tá bem m'lher. Nã te marafes qu' isto é só uma conversa...

Acudi ê cá logo, todo munto brandinho, entes qu' ela se danasse e a coisa corresse p'a donde nã me dava jêto a mim... E passí-l'e, logo, a mão p'lo pelo:

- Tens toda a r'zão, Maria. E tenho a firme certeza que nã parêce lá material c'mo este!... F'lhozes de milho c'm' tu fazes, nã há ôtra. Atã e papas com t'mates?... Já me 'tô lembendo e inda nã nas proví...

 Banho do Vinte Nove - 2011
Nã há nada c'm' um tocador de fole p'a ad'vertir a famila...


De manêras que, lá a amansí e ela enregô caminho do quarto da cama, pro jêto, p'a s' ir vestir. E f'quí ê cá mexendo as papas com o colhêrão nã fossem elas ficar com as arraspas quem-madas. Más inda me vêo à idéa mái umas coisinhas que nã podiam faltar lá:

- Maria! Nã ôves?...

- Nhôra? Nã vês qu' ê 'tô-me vestindo, nã oiço bem o qu' é que tu 'tás p' aí a ramocar?!...

- Ó m'lher, era só p'a te prècurar se já puseste uma garrafinha de madronho na cesta p' à gente bober lá uns calcesinhos dela e dar tamém ôs amigos?...

- Lá isso é que tu nunca dêxas passar... Cudado aí com as papas!... 'Tás a mexê-las? Se terem munto fogo, tira-l'e uns tiçanitos p'ra fora, nã vã elas se quem-mar...

- Fogo de más?!... Isto só 'tá aqui quái é cinza debaxo do tacho... Calhando, inda tenho é de l'e pôr mái uma lenhita p' ô fogo nã se apagar...

- Só se coisa munto pôca... Já l'e pus o tempero há um belo pôco, calhando, é caso é p' às tirar do fogo e gôrdar nessa alcôfa que 'tá ai na pelhêra da casa de fora.

- O pior é qu' isto inda é um coisinho cedo - sã o quem, sã pôco mái de sete horas - e elas vã arrefecer e ficam logo im posta, já sabes...

- Arrefecerem, que jêto?!... Atã, nã s' inrola o tacho aí nuns papelons?!... Aguentam quentinhas três ó quatro horas, se fôr preciso... E, más a más, qu' a gente nã se pode descudar com as horas. Bem sabes qu' a camineta abala às oito...

- Pode ser daqueles ali do retraço dos pintos?...

- Pode, sim. Sacode-os bem qu' ê cá já os inrolo.

 Banho do Vinte Nove - 2011
À mêa-nôte, foi quái tudo molhar os artelhos...


E assim se fez. A minha Maria afêçoô p' ali tudo munto bem aconchegadinho e desalvoramos caminho da paraja da camineta qu' era além naquela coisa adonde apoisa o helicóptero. Logo a seguir ôs bombêros, mecêas sabem.

E daí, foi só andar de cu tremido até à Praia do Vau. Más ê cá, leví um raminho de hortelão, drento da alsebêra da camisa, p'a ir chêrando p'r o caminho. E isto premode quem... Premode uma pessoa ir fazer a viaja sem nada no bucho. Nã é que nã prose, mái, de barriga vazia, um f'lano, calhando, pode-se dar o caso de l'e vir umas gasturas e chigar ô fim da viaja um coisinho atarantado.

Olhem... e serviu. D' ora im q'onto, chêrava naquilo, até desintupia as ventas... Foi um descanso. E a minha Maria fazia o memo...

De modes que, ajuntamos-se com aquela famila toda que lá ia, tudo munto ad'vertido, e chigamos im bem à Praia do Vau. Aí, foi só cada qual ajuntar-se com os sês amigos mái chigados, masturar os farneles e rapimpar-se com o que mái gostasse.

A mim o que me dé cobiça foi as belas tachadas de papas que p'r lá havia. Tirando as da minha Maria, nã sê qual delas melhor 'tava. Umas era com t'mates, ôtras com torresmos, soltêras, com brabrigons, com côve, ê sê cá com o que más...

 Banho do Vinte Nove - 2011
Ele inda hôve quem se molhasse por intêro...


Atão e as garrafinhas de madronho que p'r lá andavam?... Cada qual s' apresentava com a sua e todos d'ziam qu' era da boa. Haveram de criar um concurso p'ra ver se eram todas boas ó se algumas nã eram assim tã chigado ô que é bom, c'm' os donos afiançavam. A minha sê qu' é da melhor, méme o ti 'Verruma' 'tando sempre a pôr petafes:

- Tó diebe, tens pr' aqui uma prequêra d' aguardente qu' isto quái que nã se dá bobido!... - D'zia ele, a antrar com-migo.

- Diga lá, ti Zé... Nã gosta desta especialidade? Atã, nã beba... Dêxe lá que, no sê tempo, havera de fazer melhor...

- Pôs fazia!... Tinha alguma comparação com isto?!... Inda tinhas que narcer ôtra vez, Refóias, p'a fazeres aguardente c'm' ê cá fazia...

- 'Teja p' aí calado, ti Zé... Mecêa, às vezes, tamém fazia com cada bodega... Uma vez, até a caldêra dêxô imborrachar. Já nã s' alembra? Até ê cá tinha ido, nesse dia, lá à sua adega com o mê compad' Jôquim do Barranco, levamos umas chôriças p'a assar na forneca, fazemos uma tiborna com o panito quente qu' a prima Larinda tinha cozido nessa tardinha e inda t'vemos que l'e 'tar a ajudar a limpar aquela trugia toda...

- Nã m' alembra nada disso... Vê lá s' isso nã se deu mái foi contigo, na tua adega lá da Refóias...

- Ó mê belo amigo, nã se ponha com coisas que cá o Refóias nunca dêxô imborrachar uma caldêra... E já fiz muntos centos de estilaçons...

C'm' é qu' o ti Zé Caçapo s' havera d' alembrar, nã l'e convinha... E, malino c'mo ele é, arrenja semp'e jêto é de desfazer nos ôtros...

Bom, mái dêxemos lá isso.

 Banho do Vinte Nove - 2011
D' ora im q'onto, vinha uma onda que andava tudo de zambareta...


O qu' ê l'es posso d'zer é que, comendo, brincando e mangando, o tempo passô-se que nem um foguete e, im menes de nada, chigô-se à mêa-nôte.

- Vá ti Zé, venha dái, vamos ô banho!... Descalço já 'tá, agora só falta pôr-se im ciroilas... Ele, frio nã faz nenhum. Isto quái que imita o verão...

- 'Tás parvo, Refóias?!... Vai tu, se quereres... Ê cá nã me meto nisso!...

-Atã, tem medo de s' afogar? Nã tenha medo que 'tã ali dôs môces que salvam qualquer um em sendo preciso...

- Vai-te...

- E mecêa, c'madre C´stóida, tamém nã vem? Venham daí, punhana!... Maria!... Compad' Jôquim!... Mái atão vancêas sã c'm' os gatos, têm medo da água?...

Ô certo, ô certo, é que só ê cá é que molhí os calcanhares. Sim, que, com água dos artelhos pra cimba, nã me afiturí. Qu' ê sê nadar pôco melhor que nem um prego e o mar 'tava um coisinho alterado. Cá p' ô mê gosto, 'tá bom de ver... Mái, méme assim, f'quí todo pingando até às v'rilhas, qu' a água assubiu-me pr'as ciroilas acima e ele inda hôve tamém p'a lá um ingraçadinho que dé um margulho méme ali ô pé de mim só p'a me salpicar todo.

E pronto. Acabô-se o Vinte Nove deste ano.

Querendem ver mái retratos, acalquem na Galeria do Banho do Vinte Nove de 2011. Ó, atão, tamém podem ver no Picasa.

Passem todos munto bem e até qu' a gente se veja.

7 de junho de 2011

Dia da Espiga 2011

Dia da Espiga 2011, Monchique
A mêo da manhã, lá abalí caminho do Barranco dos Pisons com a famila da Junta...


Mái uma quinta-fêra d' às-sunção, mái um Dia da Espiga. E quem é que nã havera d' ir p' ô coçáiro num dia destes?!... Atã ele até é o feriado cá do nosso concelho... E digam-me lá se nã foi uma coisa bem pensada? À uma, que semp'e t'vemos este c'stume - quer-se d'zer, más as m'lheres qu' os homens... - de s' ir p'r 'í panhar flores p'a fazer o Ramo da Espiga. À ôtra, calha semp'e ô dia de semana - quinta-fêra...

D'zia-me o parente Tóino Rabaça, uma tarde destas, - foi no Domingo - àlém no adro da igreja, contando-me que a m'lher dele, a parenta Larinda do Tòjêro, tã penas chigô a casa, nessa tarde de quinta-fêra, assim pindurô o Ramo da Espiga p' trás da porta da antrada e aventujô o ôtro que lá tinha do ano passado:

- Se nã fosse isso, c'm' é q' uma pessoa, despôs, tinha saúde, sorte e fartura tod' ô ano?...

- Pôs, pôs. E alegria, tamém. E o qu' é qu' a gente fazia, em se vendo aflitos premode os trovons?...

- Inda más essa. É qu' aquilo, em fazendo trovons, uma pessoa quem-ma um pèzinho daqueles - p'r exempes, um coisinho d' olvêra - e jã nã cai nenhum perigo adonde a gente 'teja...

Dia da Espiga 2011, Monchique
E ia tudo munto advertido...


- Tal e qual, parente. Sem tirar nem pôr, foi o que se deu, inda este enverno. Uma ocasião, já bem de nôte, vem um trovão, ôvi-se aquele grande barrano, a minha Larinda, qu' é do mái medroso que possa ser e haver, panhô uma rabana tã grande ó tã pequena, abala a fugir da cama d'rêto à casa de fora, nã tardando nada, já ê cá me chêrava a chamusco...

- Quem-mô-se nalguma brasa do lar ó o perigo tinha caído lá?...

- Nã senhora, parente!... Foi b'scar a caxa de forfes, puxô fogo ô Ramo da Espiga, aquilo 'tava já bem munto seco, alô im menes de nada...

- Atã dé fim dele todo logo duma assentada...

- Olhe, quái que dava... Mái, d'zer a verdade, ê cá tamém m' alevantí logo atrás dela, dí-le uma manita e inda l'e salví uns q'ontos panascos.

- E os trovons, parente? Desparceram ó quem?...

- Inda soô ôtro, bem forte, ali p' ô perto, mái a gente usa tamém a pedir logo à Santa Bárba e demos em ôvi-los lá mái p' ô longe...

- Santa Bárba bendita, que no céu 'tá escrita e na terra...

- Foi isso mémo, parente Refóias. Foi isso mémo... Aquilo, a santa Bárba, é uma santa que nunca falha. Em havendo trovons, rezo-l'e semp'e a oraçanita dela. E veja lá se já alguma vez me caíu algum perigo im cimba da minha casa. Nunca!...

 Dia da Espiga 2011, Monchique
D'ora im q'onto, panhava-se mái uma florzalha p'a compôr o ramo...


- Atã, daquela vez que mecêa inda morava lá na Chã da Mula Velha, nã se deu uma coisa dessas? Diziam pr' aí, béqueme, que tinha caído lá um perigo...

- Mái nã foi im riba da casa, parente... Foi numa sobrêra que 'tava lá quái no bico do cerro, uma bela sobrêra, más inda era longinho do mê monte. Uma coisa assim c'm' daqui àlém a S. Roque. Mái estrameceu tudo, nã cude...

- Numa sobrêra, parente Tóino? Mái, atão, ê cá tinha idéa que foi madronhêro...

- Ehq!... Só se caíu mái algum im tempos qu' ê cá inda nã morava lá. A sobrêra até f'cô toda arrachada e perdé-se e tudo... Aquilo antrô-l'e pro bico, vêo pro tróço abaxo im parafuso e meté-se pra terra adrento, veja lá...

- E a sobrêra caíu logo im fanicos?

- Nã... Ela arrachô d' alto a baxo, f'cô com a corcha toda descolada, mái levô inda um belo tempo a cair p' ô chão. Pr'mêro, secô-se. Despôs, passados aí uns três ó quatro envernos é qu' o tróço f'cô todo podrido e ela amajulô no chão.

- Pro jêto, aquilo era um sito munto dado a essa coisa dos trovons...

- Ora se era!... Eles, béque-me, até atraíam lá. Havia quem d'zesse que, drento do cerro daquela banda de lá, logo preciminho da pôça do córgo alto, havia umas pedras que tinha azôgue e, atão, os trovons acudiam lá todos...

 Dia da Espiga 2011, Monchique
A mêo do caminho, ó pôco más, já ele havia quem t'vesse uns ramos mái vistôsos que sê cá o quem...


- Mái, voltando ô que se 'tava a falar, que tal achô a festa lá no Barranco dos Pisons?

- Cá p'ra mim foi do melhor. Ali a mêo da manhã, meti-me na camineta da Câmbra, levaram-me até lá, já a minha Larinda tamém lá 'tava que tinha ido a pé com a famila da Junta p'a arrenjar o tal Ramo da Espiga. Ôvi a missa assantado numa pedra lá à rés do barranco e, despôs, inchi a barriguinha com umas coisas que puseram lá p'r aquelas mesas...

- Pôs... Ele era frango assado, panito do casêro, bolo de tacho e p'r 'í fora... P'a nã falar numas garrafas que tamém lá 'tavam...

- Cale-se aí, parente!... Vinho, melosa, aguardente... Cada qual apresentava o melhor que tinha. Ê cá proví umas q'ontas, más aquela do ti Costa... Ai a do ti Costa!... Homem marafado!... Aquilo nem se sentia às goélas abaxo...

- Era da boa, sa senhora, qu' ele tamém me deu um calcesinho e sôbe-me que nem ginjas. Más ê cá 'tava mái afalcoado que vomecêa qu' ê tamém fui à pata désna da Vila até lá, atrás da famila da Junta.

- Nã t'vesse sido parvo. Fosse com-migo na camineta que nã se pagava nada... Se 'tava com medo pagar b'lhete, já sabe que a Câmbra nã leva nada. É tudo de graça.

- Lá 'tá mecêa!... Nã foi lá premode isso. Ê cá é que gostí d' ir assim a pé. Bem sabe qu' é uma coisa qu' ê gosto de fazer é andar...

- E que tal?

 Dia da Espiga 2011, Monchique
A Missa Campal, 'tá bom de ver, é tôdes anos no mémo sito...


- Ora... Foi do melhor. A lonjura nã era munta, a companha era boa, aquilo, a maior parte da famila era mulherio e moços-pequenos - aqueles meçalhos fardados de calçanitos e camisa v'rde-negra...

- Ah, os escutêros...

- Sa senhora. E já sabe c'm' é que é o mulherio. Vai semp'e tudo na galhofa... Era a ver qual é que se apresentava com o Ramo da Espiga mái bonito. E olhe que parceram lá algumas que saberam compor aquilo muntíssemo de bem...

- Parente, nã conhece aquele ditado que d'zia: 'quem sabe da luta é quem na labuta'? E elas é que lidam com flores é que sabem compor o Ramo...

- 'Tá bem visto... Já há bem munto tempo qu' ê cá nã ôvia essa. Tamém vomecêa sabe bober umas boas copadas d' aguardente. Toda a vida panhô madronho e o estilô...

- E mecêa, não?!... Olhe que lá nesse dia, ê bem no vi já com olhos todos piscos e a rir e mangar c'm' nã é sê c'stume...

- Isso é que 'tava sast'fêto...

- Ê bem vi que 'tava. E sê munto bem o perquém. Foram aqueles calcesinhos dela que mecêa imborcô lá da do ti Costa masturada com a d' ôtres amigos que tamém levaram umas garrafinhas da deles...

- Nã diga isso, parente Tóino!... Inda alguém cuda pr' aí qu' ê cá sô algum relaxado...

- Nã digo tanto. Mái que mecêa, parente Refóias, já 'tava um coisinho escorvado, nã diga que nã 'tava...

- Alguma vez?!...

 Dia da Espiga 2011, Monchique
À hora das sopas, parêce semp'e alguma coisinha p'a se dar ô dente...


- Atã e despôs, naquele estado, c'm' é que dé voltado p'a casa?

- Nã goze qu' ê cá nã 'tava escarado. Vá lá que 't'vesse, assim, um coisinho p' ô antrado... Más, olhe, despôs daquilo tudo, tive lá um amigo bom que me vêo trazer à porta de casa. Calhô-me mémo ô queres. Nã tive que 'tar à espera da via da Junta nem de me pôr a andar ôtra vez a pé...

- Quem é ruim, tem semp'e sorte...

Pronto, mês belos amigos, foi assim a minha quinta-fêra d' às-sunção, mái conhecida por Dia da Espiga.

Querendem ver mái mêa-dúiza de retratos desse dia, acalquem aqui na Galeria do Dia da Espiga.

E, já agora, vejam tamém este video da Missa Campal lá no Barranco dos Pisons:



Ó, atão, vejam aqui todos os 'Videos Refóias no YouTube'

E, fiquem-se com Dés.

2 de abril de 2011

A Magnólia do Convento (Magnolia grandiflora)

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos - Monchique (Magnolia grandiflora)
A Magnólia do Convento béque-me 'tá vai nã vai...


- Ó c'pad' Jôquim, tenho andado im cudados premode àlém a Magnólia do Convento (Magnolia grandiflora). Olho p'ra ela e béque-me nunca a vi daquela manêra...

Isto era ê cá, uma tarde destas, lambareando com o mê compadre, os dôs assantados ali à sombra duma f'guêra, dêxando passar o tempo. À sombra, é c'm' quem diz, debaxo dela, que folhas inda nã as tem. E à míngua d' ôtro assunto mái jêtoso.

Ele, d'zer a verdade, até que havia ôtras coisas qu' a gente bem podia conversar, qu' isto agora, nã se fala senã na falta de dinhêro p'r toda à banda e ôtras parvoêras dessa coisa dos partidos e tal e tal, mái cá a gente os dôs nã se metemos nisso...

- Olhe, tamém tenho levado repáiro que se passa p' além quasequer coisa... O que é nã sê, mái qu' ela 'tá com munto má cara, lá isso 'tá.

Nesse entrementes, parêce o ti 'Verruma' - o parente Zé Caçapo - tamém sem nada p'ra fazer e todo fêtinho p'a vir sovinar a gente, c'mo é uso dele.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos - Monchique (Magnolia grandiflora)
Os tróços mái grossos 'tã a f'car todos podridos. E folhas... pôcas já tem e bem amarelas...


- Logo agora qu' ê cá vinha de boa avêa p'a bober aí um calcesinho dela qu' o Parente Refóias t'vesse p' aí p'a dar à gente... Daquela qu' ele fez o ano passado... Nã é duma bagaja qu' ele, ás vezes, usa a dar, que nem se dá bobido... Nem sê d' adonde é qu' ele acareô tal abobraja...

- E mecêa que nã viesse logo à pida e com conversas estragadas... Nã trôxe uma garrafinha lá da sua premode quem? Ó tem medo de s' apresentar com ela?... Nã tem nada im ser pôco mái que frôxa...

- Ai frôxa!... Tomaram mecêas possuir um material daquela quôlideza... Tem vinte e um garantidos... P'ra más que p'ra menes!...

- Atã trazê-se-a p' à gente ver isso... Mái vocêa é mái fònica que sê cá o quem...

- Olhem, dêxem lá isso qu' ê cá digo já ali à minha C'stóida que traga uma garrafinha da minha e dê uma rodadinha à gente...

Saltô logo o mê compad'e Jôquim p'a atalhar a conversa, nã fosse a gente se marafar p' ali uns com os ôtros.

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos - Monchique (Magnolia grandiflora)
Inda nã há munto tempo qu' ela era assim. Foi na era de 2007. No mês de S. João...


- 'Tava, atão, a gente, munto bem sa senhora boa vida, a falar a respêto da Magnólia do Convento q'ondo o parente Zé se pôs aqui a matinar com o raça da aguardente... Mái nã l'es parêce que ela 'tá aqui 'tá despachada?...

- Nã me diga uma coisa dessas, home!... Uma arv'e daquelas com quái quatrocentos anos...

- Quatrocentos... é c'm' quem diz... O que 'tá àlém na tab'leta é mái de duzentos...

- Atão e quatrocentos nã é mái de duzentos?!...

- Nã se estique, parente, qu' as ciroilas sã curtas...

- Qual o quem?!... Semp'e tenho ôvisto d'zer que quem na trôxe da Índia foi esse tal imbarcadiço que mandô fazer o Convento e despôs-je-a àlém, nessa ocasião. Ora o Convento foi inagurado... Q'ondo é qu' ele foi inagurado, foi im...

- Nã sabe...

- Sê, sa senhora, más agora é que nã m' alembra... Foi, foi... Olhe, nã me vem o ano à mimóira, mái foi pôcos anos entes da gente se ver livres dos Filipes. Qu' isso sê ê cá munto bem...

- Pôs foi. Foi im 1631. Agora se a Magnólia foi ó não despôsta nessa era é qu' ê cá nã l'e sê d'zer...

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos - Monchique (Magnolia grandiflora)
Agora, olha-se p' às bandas do Convento e vê-se esta desfortuna...


- Que tenha sido nessa era ó que nã tenha, lá bem velha é ela. E até dá remorsos a qualquer um vê-la assim... S' esse tal Pero da Silva que a despôs voltasse, agora, cá e a visse naquela miséria, dava-l'e uma coisa, pobrezinho...

- Ora dava-l'e... E, más a más, qu' ele, 'tá bem qu' andava de barco, mái nã era p' aí um marujo qualquer, c'm' mecêa disse. O homem, p'ro jêto, representava ser lá o chefe daquilo tudo na Índia...

- Calhando... S' ele era o vice-rê, alguma coisa havera de mandar... Mái q'ondo se viu inrrascado no mar e aprometeu que, se escapasse, fazia o Convento, aí nã l'e servia de nada mandar...

- Olhe lá, parente Zé... Aí há uns quatro ó cinco anos, nã l'e tinha já caído uma grandessíssema pernada com o vento?... Tinha, nã tinha?

- Pôs tinha. Era quái do tamanho desta f'guêra. Sem tirar nem pôr...

- E ele des que hôve um que a foi lá serrar e carregô-a p'a fazer fogo im casa. Nã taria sido mecêa?...

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos - Monchique (Magnolia grandiflora)
Faz três ó quatro anos, inda dava gosto olhar p'ra lá...


- Olhe lá, cuda qu' ê sô dos seus ó quem?!... Ê só panho lenha adonde me pertence. E tenho lá munto p'r donde escolher nas minhas sobrêras...

- Nã se inzáine, parente Zé!... Ê 'tava só a prècurar...Mas aquilo, calhando, inda deu uma bela manchinha de lenha...

- Atã isso sabe-se...

- E nã l'es parêce que, se nessa altura, t'vessem fêto alguma coisa, nã tinha nada im, a arv'e, agora, 'tar nôtras condiçõs...

- Sê cá!... Ela já é tã antiga...

- Mái nã se tinha perdido nada im ter dado àlém um jêtinho àquilo, nã dêxarem andar àlém o gado a estrumar daquela manêra e a arrojar aquela terra toda p'ra baxo c'm' dêxaram... Já com o Convento é o mémo. Inda há-de cair dum todo...

- Olhem, mémo assim, inda tenho fé qu' ela vá arriba... Nã sê que jêto, mái tenho aqui uma coisa que me diz que sim...

- Vai arriba, vai... Ê nã vô é lá p'a debaxo dela, entes que me caia uma pernada daquelas im cimba do lombo e arrebente com-migo...

- Lá nisso nã dêxo de l'e dar os àméns. É preciso munto cudadinho nã vá um homem levar àlém uma tarôcada im forte...

Magnólia Multicentenária do Convento de Nossa Senhora do Desterro ou dos Franciscanos - Monchique (Magnolia grandiflora)
Des que tem mái de duzentos anos. Pôs tem. Calhando vêo da Índia há uns quatrocentos... É o que tenho ôvisto d'zer...


- Más ê cá, d'zer a verdade, o que me dá mái pàxão é ver o vivente más antigo cá da nossa zona desparcer. E sem tampôco a gente saber que moléstia é qu' ele tem. Inda más essa!...

- Ah isso é certo e sabido. Aquela arv'e é o vivente mái velho aqui desta serra toda. Nã tenho medo de d'zer...

- Só se aquela sobrêra àlém da Corte Grande ser inda más antiga. Sará?...

- Que jêto?!... Nã pense nisso!... Aquilo é uma sobrêra tamém munto valente, mái velha c'm' à Magnólia do Convento?!... Nã é nã senhora. Cudo ê cá...

De manêras que, o certo, o certo, é que a Magnólia do Convento 'tá com munto má cara e quem sabe lá o qu' é que se vai dar com ela. Más, agora, descorré-me aqui uma coisa da cabeça:

O amigo Pero da Silva nã sê se 'tá no céu se 'tá no inferno, mái cudo que 'teja no céu. O homem fez o Convento e despôs a Magnólia, bem morêce... E, atão, tendo lá pazes com Dés Nosso Senhor ó com um Santo daqueles que mandem qualsequer coisinha, bem podia meter lá um empenho p'a ver se a Magnólia inda nã ia desta.

- Faça isso, mê belo amigo Pero da Silva!... Fale aí com quem munto bem l'e dê jêto e nã dêxe a gente f'car sem a nossa Magnólia que mecêa despôs logo prebaxinho do Convento...

E vomecêas fiquem-se com Dés e até qu' a gente se veja.

17 de março de 2011

A VI Corrida Fotográfica de Monchique. Cá a do Parente...

VI Corrida Fotográfica de Monchique
Vai um calcesinho dela?... Esta aqui prantí-a no tema 'Gastronomia'


Antrô na Sexta Corrida
de Retratos de Monchique
voltô de cara caída
sem nada qu' o just'fique

nã ganhô prém'o nenhum
foi béque-me um desperdiço
e anda p'r'í um zum-zum
que ficô inzainadiço

foi p'ra lá fazer o quem
ia a filmar quái de gatas
nã vale nem um vintém
vá más é cavar batatas...

ó atão, p'a devassar
assome-se à exposição
dos que sabem bem tirar
retratos de eleição

VI Corrida Fotográfica de Monchique
O homem descascando a maçaroca antrô no tema 'Profissões'...


Vejam só bem, mês belos amigos, o qu' o grandessíssem'ô estapor do Tóino Emilo - o 'Moita' l'e chamam, premode o homem ser narcido e criado na Desmoitada - nã m' havera de fazer!... Tã penas l'e chigô ôs ôvidos qu' ê cá nã tinha ganho coissíssema nenhuma na VI Corrida Fotográfica de Monchique, arrenjô logo estas quadras. Calhando, só p'a m' inzucrinar. Que lá gozão é ele...

P'r menes, foi o qu' o Zé Manel, o filho do mê compad'e Jôquim do Barranco, me contô. Qu' ê cá, d'zer a verdade, désna d' há umas duas ó três semanas - p'ra más que p'ra menes - que nã no vejo e inda nã l'e falí no caso. Más, em o incontrando, logo l'e digo umas q'ontas. E daquelas qu' os cãs nã gostam!...

- Olha!... Nem d' aprepósito... Àlém vem ele todo limpêro... 'Pera aí qu' ê já l'e digo!...

Salta, logo, a minha Maria:

- Vê lá o qu' é que fazes pr' aí!... Nã ofendas o homem... Olha que nã se sabe se foi ele...

- Ai nã se sabe... Atã o Zé Manel nã me contô?!..

VI Corrida Fotográfica de Monchique
Os castanheiros a dêxarem cair as folhas todas p'ra donde é qu' haveram d' ir? P'ô tema 'Outono', 'tá bom de ver...


- 'Tejam p'r 'qui com Dés, famila. Atã o qu' é que se fazem?...

- Ora qu' é que se fazemos... Pr'àqui vamos...

Ramordí ê cá entre dentes, um coisinho, assim, com más modes, im reposta à conversa do Tóino. E ele, béque-me sintiu a ferroada, fez assim uns miécos de quem estranhô quasequer coisa. Más a minha Maria, sempre a querer atamancar tudo, falô-l'e, logo, munto bem:

- Venha com Dés, ti Tóino. Atã c'm' é que tem passado? Já há um belo tempo que nã par'cia... Mái nã foi p'r mal?...

- Olhe, nã tem calhado... Mái, graças a Dés, nã tenho rezão de quêxa. Lá p'ro mê monte a coisa nã tem 'tado mal, nã senhora...

Ramordí ôtra vez, mái, agora, só cá p'ra mim:

- Adés minhas encomendas!... Queria-l'e dar uma desanda, c'm'é qu' ê cá vô-me fazer isto agora?... A minha Maria meté-se logo de premêo...

Mái, vêo-me assim uma rabeada ô de cima, digo-l'e, com os mémes más modes:

VI Corrida Fotográfica de Monchique
Esta, nã sê se fiz bem se fiz mal. Puse-a no tema 'Caminhadas'...


- Atão e que tal de versos?... Des que têm andado p'r 'í a correr uns a mê respêto... Calhando, já passaram lá p'ro sê monte. Ó abalariam de lá...

- O qu' é que mecêa me diz, ti Refóias?!... Nã sê de nada... Fazeram-l'e pr' aí alguma belareta?

- Nã sabe?!... Atã quem é que usa a tirar versos aí, p'r tudo e p'r nada, a isto e àquilo? Sô ê cá?...

- Ê cá tamém não... Só pr' aí uma vez ó ôtra, já faz munto tempo, é que fiz umas coisalhas. Mái tudo sem emportãinça... Agora tirar-l'e versos a si, isso nem pensar!...

Ora nem pensar... Nã foi ôtro senã ele... Ê cá é que nã me podia adiantar, qu' o Zé Manel contô-me aquilo debaxo dum grande segredo... Mái, méme assim, inda voltí ô assunto:

- Atã se nã foi vomecêa, que jêto uma criatura me ter contado que mecêa sabia, já há uns belos dias, quem é que tinha e quem é que nã tinha ganhado os prém'os daquela Corrida de Retratos que 'tá agora lá no 'Espaço Jovem' p'a ser vista?

- E o qu' é qu' isso tem, ê cá saber uma coisa dessas? Ó ê m' ingano munto ó anda aí a manita do Zé Manel, ali o filho do sê compadre Jôquim do Barranco...

 VI Corrida Fotográfica de Monchique
Esta aqui, atão, nã tem nada que saber. Foi p'ô tema 'Religião'...


- Nã 'teja já com palpites, qu' ê cá contí-l'e o milagre mái nã l' alomií o santo... O Zé Manel nã é p' aqui ch'mado... Ê só gostava era de saber quem é que me tirô aqueles versos...

- Olhe, tamém ê cá... Mái lá qu' eles 'tão fêtos ô consoante, lá isso 'tão... Mecêa nã f'cô assim um coiseco infèzado dos ôtros todos l'e terem tirado a palhinha?... Atã, pronto...

- Qual infèzado nem mê infèzado!... Isso foi vancêa qu' enventô tudo e pôs lá nos versos... Se nã fosse perquem, ê logo l'e d'zia... Cuda qu' ê que sô ceguinho e nã vejo logo que foi vomecêa?!... Nã têm mái nada que fazer, metem-se na vida dos ôtros...

- Ó ti Refóias, nã se marafe, home. Atã mecêa nã tem p'r c'stume l'e dar assim essas gavierras e agora 'tá aí pior que escamungado premode uma coisa que nã vale nada?...

- Ai que nã vale nada!... Mecêa gostava que l'e tirassem uns versos destes, a fazerem pôrra de si desta manêra? Gostava?... Diga lá se gostava, hom?..

- Atã nã havera de gostar?... Se fosse nestas condiçõs, gostava...

- Já 'tá a fazer cachamorra de mim ôtra vez?!... Já nã basta o que basta?!...

VI Corrida Fotográfica de Monchique
P' ô tema 'Lazer', arrenjí esta...


- Nã se inzáine más qu' ê conto-l'e a verdade, ti Refóias. Mái nã se parêça mal... Isto foi só uma parte qu' ê cá e o Zé Manel l'e fazemos. Sem ser p'r judêria... E ninguém sabe do caso a nã ser a gente.

- O quem?!...

- Sa senhora. Combinamos-se os dôs, ê cá fiz os versos e ele vêo-l'e contar c'm' se fosse uma coisa que andasse já p'r 'í na boca do mundo... Mái foi só p'ra gente fazer aqui um coisinho de galhofa consigo e incher-se o papinho a rir.

- À minha conta!... Ê nã l'e acho graça nenhuma...

- Agora, veja lá se vai logo amostrar isso a alguém...

E, nisto, parêce o Zé Manel às carcachadas d'rêto a mim. Atã nã é qu' os mariolas vinham combinados e ele f'cô ali à ponta da casa a ôvir a conversa toda?!... E ê cá fui naquilo que nem um parvinho... Mái c'mo eles sã boas pessoas, lá f'camos amigos ôtra vez.

E mecêas nã liguem ôs versos qu' o Tóino 'Moita' tirô qu' aquilo foi só p'a se meterem com-migo.

Querendem ver o resto dos retratos qu' ê cá tirí, acalquem aqui na Galeria da minha VI Corrida Fotográfica de Monchique e vejam à vontade.

E vão tamém lá ô 'Espaço Jovem', ô pé da Junta de Freguesia de Monchique, ver a Exposição qu' é p'a saberem o qu' é bom im retratos de Monchique. E é melhor nã s' atrasarem munto qu' aquilo acaba já no dia 25 deste mês...

E Dés l'e dê saúde a todos. E pacência p'a m'aturarem.

15 de janeiro de 2011

Em 'Noite de Reis' tamém se cantaram as 'Janeiras'

Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda 'Os Amigos da Fóia'
'Os Amigos da Fóia', fardados com o sê boné deles, nem sê o que l'es diga... Sã do melhor que possa ser e haver...

Inda agora aqui ch'guí
já l'es vô a prècurar
se 'tão bonzinhos de saúde
dã l'cença d' ê cantar...

- Ó parente Zé, cantar o quem?!... Isso foi ontem à nôte. Hoje já é Dia de Rês e, daquem nada, é solposto...

- E quem é que l'e diz o contráiro?... Sará de caso qu' ê cá já nã possa arremedar aqui um coisinho daquilo qu' eles cantaram, a noite passada, lá no café da Fonte dos Chorons?...

- Poder, pode. Mái que mechas de estilo é esse que mecêa usa qu' até faz cocégas nas orelhas duma pessoa?!...

- Lá sabe vomecêa um estilo melhor... Cante-o lá qu' ê cá semp'e gostava de ver. Vá, parente Jôquim, vá. Mostre lá a sua virtude!...

Isto era a conversa do parente Zé Caçapo, o 'Verruma' l'e chamam, com o mê compadre Jôquim do Barranco, em Dia de Rês, os dôs afincados a bober uns copinhos ali no café de cima, já im mêa tarde, qu' é que me quem diz, quái à noitinha, qu' isto, agora, os dias nã sã nada. Tã penas o sol c'meça a decer, assim se põe, im menes dum foguete.
Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda 'As Figueirinhas e Os Amigos da Figueira'
Lá de baxo, do Algarve, vieram 'As Figueirinhas' e 'Os Amigos da Figueira'. Que bela jolda...

P'ro jêto, tanto se faz um c'm' o ôtro, tinham ido, na ôtra noite atrás, ver as joldas que vieram ali ô Restairante da Fonte dos Chorons cantar os Rês. Os Rês e as Janêras, qu' isto, agora, já a famila nã 'tá p'a se dar ô trabalho d' andar aí de porta im porta a cantar tal coisa, na passaja do ano e na nôte de rês, ás tensas de l'e darem um convindado que vá nem venha... E atão, fazem tudo pre junto.

Ora, a Junta arrenja manêra da famila s' ajuntar ali no dito restairante e, quem quêra, dá o nome e vai lá cantar. Aquilo, com jêtinho e nã dêxando a coisa munto p' ô fim, c'm' ê cá fiz desta vez, inda se panha uma f'lhòzinha p'a dar ô dente e um calcesinho de melosa p'a alimpar as goélas. Premode, tudo dado p'r a Junta. E fazem eles munto bem. Que nunca l'e dôia as manitas...

Pôs ê cá tamém fui lá este ano. Mái fui sòzinho qu' a minha Maria nã teve jeto de largar o monte e f'cô im casa nã sê se dando pontos ó fazendo ôtro governo quasequer. Ô certo, ô certo, é qu' ê cá, quando chiguí a casa, já bem de madrugada - era quái uma hora, nã cudem... - já ela 'tava, munto bem sa senhora boa vida, espatarrada im cimba da cama, a dromir, com a televisão num barulho parvo. Mái, em ela tendo sono, nem que passe o comboio...
Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda da Ludoteca
Os meçalhos da Jolda da Ludoteca tamém já cantavam qualquer coisinha. E tava lá uma mecinha qu' era munto ingraçada...

E, vai daí, até que aquilo foi uma coisa qu' ê cá gostí. Más olhem que gostí ô bem fêto. Par'ceram lá umas joldazalhas de mecinhos e tal... qu' uma pessoa já sabia que nã era coisa pr' í àlém, más é bom qu' é p'a ver s' os nôvos nã dêxam perder estes c'stumes qu' a famila tinha nos tempos dos avózes deles - que sô ê cá e ôtros c'mo eu.

Mái tamém par'ceram lá ôtres, mormente duas joldas, que eram de ver e chorar p'r más. Olhem, uma vêo da Figuêra, lá de baxo, do Algarve. Tinha duas joldas juntas. Uma de m'lheres, ôtra d' homens. Foi uma coisa da pontinha da orelha!... Dava gosto, mês belos amigos. Assim, sim!... Chemavam-se 'As Figueirinhas e Os amigos da Figueira'.

A ôtra, era de cá. Sã 'Os amigos da Fóia'. Ah môces marafados!... 'Té se m' arrepiaram os cabelos... Desataram a cantar 'Os Rês' - qu' eles, atão, nã cantaram 'As Janêras' - nunca tinha visto uma coisa assim. Os apontadores eram do melhor, os foles eram uma classe, o estilo era do antigo, e os cantadores cantavam que nem passarinhos... E, nã cudem, tinham farda. Traziam todos de boné igual...
 Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Uma filhó caseira
Com um boné destes, uma f'lhó que nem um capacho e ôvindo joldas a cantar 'Os Rês', quem é que nã há-de 'tar sastefêto...

De manêras que, c'm' ê cá já falí lá atrás, com aquela enfluêinça de ver tudo munto bem sem perder coisíssema nenhuma, f'quí sem f'lhó. Uma mecinha que 'tava lá à porta da antrada, q'ondo ê cá chiguí, bem me deu um papelinho e disse-me assim ô ôvido:

- Em l' apetecendo, apresente-se ali ô balcão com este papelinho qu' eles dã-l'e uma f'lhòzinha e um copinho de qualquer coisa. É p'r conta da Junta...

- 'Tá bem - disse ê cá - e Dés l'e pague m't'agradecido.

E f'quí-me a lember, uma preçanada de tempo, semp'e com o fito na f'lhó e no tal calcesinho dela. Qu' ê cá, atão, béque-me melosa nã gosto munto. Isso é bobida mái de m'lher. Agora, um calcesinho dela, da boa, isso cai que nem ginjas!...

Mái q'onto mái me lembia, mái perdia... Ê cá havera era de ter ido logo tratar do caso. C'm' nã fui, barimbí-me... Im vez disso pus-me a bispar tudo de fio a pavio... atrás duma jolda vinha ôtra, ora... q'ondo dí p'r mim foi já no fim, já 'Os Amigos da Fóia' lá iam p'ra rua afora e ê cá atrás deles. Aí vê-me a f'lhó à idéa, abalí a fugir ô café, cheguí lá todo escalfado e prècuro à mecinha que 'tava do lado de drento do balcão:
 Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda do CNE e Guias de Portugal
O CNE e as Guias de Portugal apresentaram-se com esta jolda. Dá gosto ver qu' os nôvos tamém aprecêam estas coisas...

- Menina, atã inda há p'r 'í uma f'lhòzinha cá p' ô Parente?

- F'lhós?!... A uma hora destas?!... Ai, Parente, tenha pacênça mái já nã há nada disso... Atã, agora é que vem?!...

- Olha que cachamorra esta... Atã ê cá cudava que, em tendo uma senha destas na mão, f'cava semp'e aí uma f'lhòzinha gôrdada p'ra mim...

- Põs era p'a 'tar... Mái, atão, a uma hora destas, o qu' é que mecêa quer... Méme que t'vesse sobrado alguma, já a gente tinha qu' a ter jogado p' ô balde das lavaduras...

- Nã me diga que jogaram a minha?!...

- Alguma vez?!... Onde sará qu' ela vai a estas horas... Calhando, já 'tá até desmoída e tudo...

- Ai a minha pôca sorte!... Minha bela f'lhòzinha... Atã s' ê cá sabesse disso, nã tinha vindo logo aprevêtá-la assim que chiguí?!...

- Atã, pronto. À ôtra vez, já sabe. Nã se ponha a pôco qu' é p'a nã dar nisto. E tome lá uma calcesinho de melosa p'a nã perder tudo...

- Melosa?!... Nã pode ser de madronho, menina? É qu' a melosa é ruim p' ôs diabêtes. Qu' ê cá, graças ô D'vino Pai, nã tenho tal mal, mái quero-me furtar a ele...

- Atã, vá lá um copinho d' aguardente...

E lá me deu um copinho. E, d' agora im diante, mês belos amigos, nunca mái caio nôtra. Tã penas lá chegue, passem p'ra cá o que me acabedar...
 Noite Reis e Janeiras, em Monchique - Jolda Improvisada
Estes meçalhos nem nome tinham. E tamém nã cantavam nada que d'zesse benza-te Dés. Mái que eram bem caçados, lá isso eram...

Mái dêxando isso p'a trás das costas e desquecendo uma desfortuna tã grande que foi um homem f'car sem f'lhó em Noite de Rês - vá lá, vá lá qu' inda panhí o tal calcesinho dela - semp'e l'es digo que coisas destas - alembrar os nossos usos e c'stumes - nunca se deviam d' acabar.

E, isto, agora, é só uma conversa. De parvo, 'tá bom de ver... Mái, cá p'a mê gosto, inda gabava de ver a nôte de rês sem aquela aparelhaja que 'tava lá no café. As joldas a cantarem c'm' nôtros tempos. Sem alte-falantes, nem nada. Tenho cá p'ra mim, qu' era melhor... Mái a Junta é que sabe.

E tamém gostava de ver o qu' é qu' 'Os Amigos da Fóia' eram capazes de fazer se t'vessem um a'xilozinho da Junta ó da Cambra p'a nã dêxarem este c'stume das janêras e dos rês levar sumiço. Nã era preciso grandes coisas. Mái, c'm' a senhora Presidenta já me disse qu' ia pensar no caso, posso dromir im sossego.

Agora, ôtra coisa. Ê cá tirí p'a lá uns retratos e uns videozalhos. F'cô tudo uma prequêra, que, à uma, o artista é fraco, e, à ôtra, 'tava tudo munto pertado e às 'scuras. E, agora, inda pre cimba, há uma remessa de dias qu' ê cá ando a ver se dô posto aquilo no YouTube e o YouTube béque-me nã quer arreceber tal coisa.

De manêras que, vô-me pertando com esse tal do YouTube a ver se dô fêto alguma coisa dele, e, tã penas tudo 'teja arredondado, logo ponho aqui as ligaçõs p'a mecêas darem ido lá ver.

Os retratos já nos podem ver. Acalquem aqui na Galeria da Noite de Reis, fazendem favor.

E f'camos p'r 'qui. Passem todos munto bem, com um ano intêro chêo de saúde e ôtras coisas boas e até qu' a gente se veja.

* * * * * * * * * * * * * * * *

Quái duas semanas despôs, mémo já sendo sopas despôs do jantar, aqui vai a ligação p' ôs 'videos':

'Videos Refóias do YouTube'

Ó, atão, vejam logo este sem ter que lá ir:



19 de dezembro de 2010

O Jornal de Monchique faz anos

O Jornal de Monchique faz 25 anos
Atã nã é qu', ôs 25 anos, o Jornal de Monchique já saíu 327 vezes cá p'ra fora?!... E 'tá p'a durar...


'Tive aí num certo sito com a minha Maria e, isto, as m'lheres, já se sabe c'm' é qu' elas são. Nã há coisíssema nunhuma qu' elas nã dêem notiça. De manêras que trôve logo uma nova p'a me dar, tã penas chigamos ô monte.

Nã é que seja coisa do ôto mundo, mái, d'zer a verdade, tem que se l'e diga. É qu' o Jornal de Monchique, chigando ô dia 21 deste mês, faz anos. E já tem uma bela conta, nã cudem... P'ro jêto, des que são já vinte cinco.

- S' acuaso isso é assim c'm' tu dizes, Maria, é certo e sabido qu' o chefe lá daquilo nã dêxa perder um atopo desses sem fazer uma festa de tôd' ô tamanho...

- Atã, e nã é caso p'ra menes. Já tenho ôvisto falar qu' ele parceram por 'í muntos jornás, daqueles que fazem lá im Lisboa e nôtras bandas, que nã duraram esse tempo todo...

O Jornal de Monchique faz 25 anos
Tôdes meses, cá vem ele. Nunca falha...


- Calhando...

- E sará qu' ele, lá o chefe do Jornal, s' alembrará cá da gente? P' a s' ir tamém à função...

- Nã querias mái mel texugo?!... Logo, que o qu' ê cá tenho ôvisto é que o Jornal nã tem lá grandes posses p'a coisas dessas, e, despôs, que, mémo que t'vesse, o senhor dôtor Zé Gonçalo nã no ia consumir com a gente. Atã assim, ia a famila aí toda de Monchique...

- O senhor dôtor Zé Gonçalo?!... Atã é ele que manda lá naquilo?...

- Cudo que sim. P'r menes é o que diz no Jornal: 'Director: Nobre Duarte'...

- Olha!... E ê cá a cudar que era o ôtro senhor dôtor, tamém da méma farmácia...

- Quem? O senhor dôtor Zé Manel?... Esse, béque-me, tamém manda lá bem munto, sim...

- Atã isso sabe-se... Já rapairaste quem é que escreve sempre, logo na sigunda lauda, umas coisas daquelas que têm que se l'e diga? Eles, se nã 'tô atribuído, chamam-l' 'editorial' ó uma coisa assim...

- Mái, nôtres tempos, béque-me nã era ele. Calhando, ora é um, ora é ôtro...

- Dos que mandam, em dôtores, só falta o senhor dôtor Paulo Rosa, qu' o senhor Carricinho, cudo ê cá, nã é tal coisa...

- Pôs não, mái sabe mái que muntos... Foi ele que insinô parte dos que, agora, sã dôtores. Essa é qu' é essa!...

O Jornal de Monchique faz 25 anos
Mal se vê, mái 'tá ali a famila toda que faz o Jornal de Monchique...


'Tava ê cá e a minha Maria, sa senhora boa vida, no mêo desta conversa, logo pracàzinho da casola dos coelhos, soô, parêceque, uma rasmalhada ali p' trás dumas tôiças. Calamos-se e vá de s' ingrilar p'a lá a ver o que era.

Ora o que era. Era o 'Lanzudo'... O 'Lanzudo' é o canito do mê compad'e Jôquim do Barranco, um b'chinho, aquilo que se pode ch'mar uma coisa bonita. Todo branco, todo cabeludo, azedo do pior em 'tando ô monte, e nã pode ver nada mexer que joga-se logo.

E s'o 'Lanzudo' 'tava ali, era qu' o dono - ó a dona... - tamém nã 'tariam munto desviados. Bem dito, bem fêto, assim chigaram logo os dôs atrás dele.

´Tejam com Dés, venham com Dés, c'm' é 'tão, c'm' é que não 'tão, lá se falamos todos c'm' é dado. Volto-me ê cá p'a eles os dôs:

- 'Tava-se a gente aqui a falar qu' o Jornal de Monchique já há vinte cinco anos que começô. Vejam lá c'm' o tempo passa a fugir. Parêce que foi ontordia...

O Jornal de Monchique faz 25 anos
Faz uns tempos, nã sê o qu' é que l'es deu, desataram a pôr aqui as patacoadas do Parente da Refóias...


- Tó, diacho!... Já vinte e tal anos!... Pôs ê cá, mémo nã sabendo ler quái nada, arrecebe-o désna do prencipo. Gosto de saber aquelas coisas. E a minha C'stóida tamém...

- Sim tamém vejo quái sempre os retratos da famila que morreu e isso tudo...

- Atã e nã tem lido tamém aquelas patacoadas cá do Parente da Refóias qu' eles, faz uns tempos, desataram a pôr lá?

- Ê cá nã tenho vagar pra isso, compadre... Vejo os retratos e já é munto. O qu' é vomecêa cuda?... E p'a ôvir as suas patochadas nã tenho precisão de ler o Jornal de Monchique. É só vir aqui e ôvi-lo falar...

Aí, calí-me, qu' a minha c'madre C'stóida nã vinha de munto boa avêa e nã fosse a gente impinar p' ali os barretes.

Mái, voltando ô Jornal de Monchique, indo gostava dele fazer más ôtros tantos anos e ê 'tar cá p'a ver. Ah isso gostava! E s' isso nã se dar, tenho a firme certeza que nã é p'r o Jornal ter desparcido. Ê cá é que já fui fazer uma viaja só com bilhete p' à banda de lá...

Parabéns ô Jornal de Monchique e à famila qu' o tem fêto désna d' há um q'ortêrão d' anos até agora. Aguentem-no até o mê-cento, p'a nã pedir, logo, até ô moio.

E Dés l'es dê saúde.